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O CANGAÇO EM FOCO
Desde: 28/02/2011      Publicadas: 854      Atualização: 09/11/2013

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 LITERATURA & CANGAÇO

  18/06/2012
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UM CORDEL A NAZAREZINHO

UM CORDEL A NAZAREZINHO

UM CORDEL A NAZAREZINHO

UM CORDEL A NAZAREZINHO

Autor Medeiros Braga

Deixar não posso, com glória,
De narrar como descerra
De Nazareth sua história,
Seu povo, o vale e a serra;
Pois, como disse o profeta,
Infeliz é o poeta
Que não canta a sua terra.

Nazareth-Nazarezinho
Vou contar do que já vi,
De tudo que me falaram,
Escritores que já li,
Da rebeca e cavaquinho
E daquele pedacinho
De vida que lá vivi.

Não podia começar
A descrever nesse instante
Sem citar primeiro o índio,
O legítimo habitante,
Esse valente guerreiro
Que quebrou ali primeiro
A solidão imperante.

Habitavam os sertões
Da Paraíba do Norte
Destemidos batedores,
Guerreiros de grande porte
Que tinham o céu por abrigo,
Que peitavam o inimigo
Sem jamais temer a morte.

Da África vieram há
Quinhentos séculos atrás,
Aqui não havia gente,
Eles, sim, foram os reais
Habitantes dessas terras
Para isso, muitas guerras
Enfrentando seus rivais.

Aliás, os africanos
Foram os povoadores
Da Europa, Ásia, América,
Com arco, flecha, tambores.
Nessas regiões, além,
Eles sem tirar ninguém
Foram os seus fundadores.

Foi assim que eles chegaram
Pelo novo continente,
Procurando acomodar-se
Onde não havia gente;
Como não tinha ninguém
Ocuparam como alguém
Em tal paz, independentes.

Com o nome de tapuia
Se podiam definir
Como tribo do coremas,
Ariús ou panati,
Jenipapo, canindé,
Pegas e caturité
Ou valente janduí

Os tupis do litoral
De tapuias definiam
Setenta nações indígenas
Que pelos sertões viviam
Em paz, então, com os seus,
Bem longe dos europeus
Que sua terra invadiam.

Para os tupis aliados
Do português invasor
Todos índios que viviam
Em tribos no interior
Eram "tapuias" sem sedes,
Andarilhos e rebeldes
A qualquer dominador.

Não aceitando a invasão
Eles foram para a luta
Dessa tal "Guerra dos Bárbaros"
De tanta batalha bruta;
Desse embate desigual
Do fuzil e do punhal
Com arco e flecha em disputa.

O que os lusos queriam
Era, pois, inaceitável,
Toda imensidão de terra
Para pasto e agricultável,
E sem gasto de centavos
Tornar seus donos escravos
Desse negócio rentável.

Depois de cinqüenta anos
De luta tão desigual,
Os tapuias vão tombando
Aos pés da força do mal,
Vindo a ser quase, malgrada,
Toda raça exterminada
Ante um cruel arsenal.

As nossas terras, portanto,
Serras, vales e ribeiras
Do Trapiá e Piranhas
E bandas das cajazeiras,
Por histórias comprovadas
Foram elas habitadas
Por essas tribos guerreiras.

Só bem mais tarde chegaram
Os tais colonizadores,
Apossando-se das terras
Consideradas primores,
Trazendo mais como agravos
A nódoa d"alguns escravos
Dos quais já eram senhores.

Nazarezinho chamava-se
Nazareth a se saber,
Segundo o padre Pereira
Que dele pôde escrever,
Foi seu nome, sem motivo,
Para o diminuitivo
Quando passou a crescer.

Sua terra de tão boa
Despertou um bandeirante,
Era ele um matador
De índios, muito arrogante,
Se chamava com seu relho
De Domingos Jorge Velho
Cruel, insano, pedante.

Foi o exterminador
Do Quilombo dos Palmares,
Ao fogo intenso, cerrado
De soldados aos milhares
E de canhão e fuzil,
Matou vinte e cinco mil
Quilombolas nos seus lares.

Porém, esse algoz morrendo
A luta continuou,
Contra tamanha injustiça
O índio não se entregou,
Com a saga e rebeldia
Enquanto teve energia
Para a luta, ele lutou.

Se eu pudesse faria
Uma estátua da grandeza
Do índio, com uma lança
Já em uma das mãos presa
E do Serrote do Pico
Eu poria lá no bico
Para expor sua braveza.

Esse mesmo derrotado
Foi mártir e heroi também,
Deu exemplo de bravura,
Resistiu como ninguém;
Numa luta desigual
Entre o viver com o mal,
Preferiu morrer com o bem.

Lá com eles estiveram
Os ditos missionários,
Eram os religiosos,
Frades, leigos e vigários.
Tinham esses a missão
De fazer índios, então,
Em cristãos e operários.

Inclusive, há na serra
Lá de "Santa Catarina"
Uma fonte permanente
Só de água cristalina.
Tem a sua identidade
Em "Olho D"Água do Frade"
Que esteve ali por sina.

Uma lenda há que conta
Que um frade ali chegou
Com riquíssimo tesouro
E nesse poço jogou
Com um pedido, em som,
Que somente um homem bom
Desfrutasse seu valor.

Essa lenda narra ainda
Uma cena horripilante,
Que no tal poço um tesouro
Descobriu um viajante,
Mas, ao tentar resgatar
Veio o ato a se encerrar
Em tragédia cruciante.

A verdade que se sabe
É que ele, o poço, existe,
Jamais secou numa seca,
A qualquer verão resiste,
Sua água é abundante,
Mesmo escoada constante
No mesmo nível persiste.

O prefeito da cidade
Tentou dali implantar
Um abastecimento dágua
Para atender o lugar,
Mas, do poço, por resposta,
As duas bombas lá postas
Não conseguiram esgotar.

Há por lá as cachoeiras
E piscinas naturais,
Várias inscrições rupestres
Com vestígios de animais,
Sinal que índios estão
Vivendo na região
Já de milênios atrás.

Três nomes teve essa terra
No percurso da história,
Primeiro Fazenda Picos,
Bem acesa na memória,
Depois veio Nazareth
E por fim com muita fé
Nazarezinho, notória.

Também passou essa terra
Por diversa condição:
Começou como fazenda,
Depois povoado, então,
Sendo distrito mais tarde
E, finalmente, cidade
Com sua emancipação.

Foi de distrito à cidade,
Com seu poder soberano
Em vinte e dois de dezembro
De sessenta e um, o ano,
Cresceu como emancipada
Mas, pela ação empenhada
Do potencial humano.

Usando bem os recursos
E a criatividade,
Se fundou logo um ginásio
Para a sua mocidade,
Vieram luz, calçamento,
Emprego com crescimento
Do comércio da cidade.

Não podendo me estender
Dos prefeitos, seus perfis,
Abro aqui espaço para
Citar dois pela raiz
Que honraram na gestão:
Chico Mendes um, então,
O outro Osório Luiz.

Esses dois contribuíram
Pela sua honestidade,
Seu dinamismo, atenção
A uma sociedade,
Para que, ante o estorvo,
Pudesse viver o povo
Sem tanta dificuldade.

Sem desmerecer Osório
De provado compromisso,
Chico Mendes algumas obras
Prestou um grande serviço,
Como a eletrificação
Que antes de combustão
Era cheia de enguiço.

Também, pela importância
Bem maior da educação,
Merece aqui Cipriano
"In memoriam", a saudação,
Porque foi com tal fervor
Ele quem alavancou
O saber na região.

Nazareth foi pelo o branco,
Intensamente, explorado
Pelo século dezenove
Mais ou menos em meado,
Lá pela Fazenda Picos
Com muitos pés de angicos,
Muita caça e algum gado.

Deu-se a povoação
No período imperial,
Foram terras devolutas
Ocupadas como tal,
Daí se iniciou
O que então se chamou
Alavancada fatal.

Com alimentos de mesa
Começou a produção;
A cera de carnaúba,
Oiticica, o algodão,
Depois pequeno fabrico,
E no Serrote do Pico
Deu-se início à criação.

Atuou em Nazareth
Uma certa bolandeira,
Trabalhava o algodão
Como descaroçadeira,
Agregando mais valor
E mais renda ao produtor
Com melhor preço de feira.

Havia proprietários
Com glebas de imensidade,
Porém, de famílias grandes,
Vindo a ser elas, mais tarde,
De pequeno produtor
Sendo a herança um fator
Da menor propriedade.

Mas, Nazareth povoado
Muita coisa produzia:
Potes de barro, panelas,
Sabão potassa em quantia,
Chapéu de palha, vassoura,
Calçado, cinto, e autora
Da rapadura em valia.

A produção de vassouras
Com destaque mais se dava
Lá no Sítio Vale Verde
Cuja palha coletava
Dos pés de carnaubeira
Para produzir a cera
Que Dalí se exportava.

Por ter seu carnaubal
Vale Verde era chamado,
Ali o verde imperava
Belo, imponente, exaltado;
Por maior que fosse a seca
Com a sua ação dantesca
O seu verde era intocado.

Era o mel de Nazareth,
Por seu engenho a vapor,
Visto em vasta região
De inigualável sabor,
Rapaduras e batidas
Eram todas bem vendidas
Por merecido valor.

Inclusive, a rapadura
Nas feiras d"outras cidades
Vendiam outras por ela
Com tal desonestidade
Que, causando maior berro,
Foi criado logo um ferro
Para a sua identidade.

Mesmo assim os desonestos
O ferro falsificavam
E nas feiras mais distantes
Pra vender anunciavam
Como sendo, pelo pé,
Rapadura de Nazareth,
E as pessoas compravam.

Nazareth também plantava
Em pequena proporção
Nas represas dos açudes
Em períodos de verão,
O fumo que, produzido,
Era muito consumido
Pelos fumantes de então.

Em Nazareth também tinha
Uma gigante caiera,
Uma cal de qualidade
Bem vendida era na feira,
Era a sua produção
Escoada em caminhão
E pela via tropeira.

Também ali tinha muitas
Gigantescas olarias,
Onde o oleiro, o tijolo
E a boa telha fazia,
Vindo a ser após trocadas
As casas de taipa usadas
Por outras de alvenaria.

As mulheres que já tinham
Uma boa ocupação
No artesanato de barro,
No alfenim, algodão,
Revelavam, na verdade,
Uma grande habilidade
Também, pra confecção.

No processo-produção
De destaque em Nazareth
Está a roupa que é feita
Com a perfeição, até...
Produção tal que se expande
Por um grupo muito grande
Formado só por mulher.

Os recursos naturais
E as mãos habilidosas
Dos nazarenos que fazem
Coisas tão maravilhosas
São as causas principais
Que bombearam bem mais
Tantas coisas preciosas.

A mão de obra e a terra
Usadas com inteligência
Foram elas geradores
Dessa grande experiência;
Mostraram com claridade
A potencialidade
Posta com eficiência.

Da Fazenda Picos foi
Alguma terra doada
Para a construção da igreja
Que seria, após, chamada
Por todos, com devoção,
Já de São Sebastião,
Sendo muito festejada.

Há uma história ou "estória"
Que até hoje se fala
Dum acidente que houve
De morte, e de alta escala,
Duma criança, por pecha,
Ferida por uma flecha,
Caindo sobre uma vala.

Brincavam de arco e flecha
Vários meninos na terra,
Como brancos, uns de casa,
Outros de índios na serra,
Quando uma flecha certeira
Foi fatal na brincadeira
Para acabar com tal guerra.

Era o pai dessa criança
Um ricaço fazendeiro,
Como São Sebastião
Morrera como guerreiro,
Ele se dispôs, então,
Em pagar a construção
Sendo o santo o padroeiro.

Dalí daquela igrejinha
Para a futura cidade
Foi surgindo a Rua Velha
Com certa velocidade:
Bodega, café, bilhar,
Loja de tecido e bar,
Vindo a farmácia mais tarde.

Tinha a igrejinha um sino
Que anunciava o finado,
As missas com casamento,
A novena, o batizado,
Nas festas de padroeiro
A procissão do guerreiro
Em seu andor carregado.

Ali em frente o vigário
Caminhava com a cruz,
Os pifeiros iam ao lado
Com seus sons belos e jus,
Atrás o povo em exaustão
Para o São Sebastião
E adoração a Jesus.

Nesses momentos festivos
Era grande a animação,
Os que se foram, voltavam
Quais aves de arribação,
E nessa festividade
Vinham matar a saudade,
Sentir o cheiro do chão.

Naquelas festas, de fora
Vinham tudo de brincar,
Carrossel, onda-marinha,
Cavalinhos a rodar,
Canoa, bozó, roleta,
Violeiros, em banqueta
As três cartas, pacará.

A Rua velha por fora
Das festas de padroeiro
Ia sendo frequentada
Por seu povo e forasteiro,
Percebia-se aumentar
Casas de jogo de azar
E bares de cachaceiro.

Se aumentavam as casas
De bebida e jogatina
Também surgia e aumentava
A sua ação assassina.
Nas casas de azar e sorte
E nos bares até morte
Se tornava uma rotina.

Foi ali assassinado
O coronel João Pereira,
Em uma trama macabra
Da política traiçoeira,
Perigosos assassinos
Viriam com tal destino
De findar sua carreira.

Além de ser coronel
E delegado atuante,
Também era João Pereira
O maior comerciante,
Elementos em contenda
Entraram na sua venda
Com o fim determinante.

Entraram na sua venda
Com três possantes fuzís
E pediram três cachaças
Em gestos bruscos, hostis,
O coronel percebendo
O que estava acontecendo
Não esperou pelo bis.

Era aquele ato fúnebre
A morte por encomenda,
Sairiam dele mortos
Um amigo lá da venda
E mais dois da cabroeira,
O Coronel João Pereira
Morreria na fazenda.

Um por nome de Zé Dias,
Dos três bandidos ali,
Escapou, esfaqueado
Com o seu fato a sair,
Ele corria e parava,
Pegava o fato e botava
Para dentro, até sumir.

O coronel na Fazenda
Com todos ao lado seu,
Morria lúcido pedindo
Calma no que ocorreu.
Dizia com segurança
Que não queria vingança:
"Quem me matou já morreu".

Disse a Chico, porque foi
O que mais se revoltou:
"Não quero vingança não,
Já morreu quem me matou...
Pois, dos três que me atacaram
Dois deles no chão ficaram,
Um apenas escapou".

Chico deu sua palavra
Ao seu pai já moribundo,
Mas o povo não aceitava
E com ódio tão profundo
Acusava sem piedade
De mole, frouxo, covarde,
Cara a cara, todo mundo.

A justiça e a polícia
Ali não faziam nada
E o assassino vivia
Feliz em muita morada...
E sabendo que a família
A vingança não faria,
Vivia dando risada.

Chico Pereira sabendo
Ia à polícia e avisava
Que, dormindo, o criminoso
Ali perto se encontrava,
Depois disso ia pra casa
E de moral já tão rasa,
Por algum tempo esperava.

Passado, então, mais um tempo
Voltava à delegacia
Fazia mais um pedido
E depois disso se ia,
E o próprio delegado
Protegendo o acusado,
Secamente, prometia.

Certo dia o delegado
Veio, assim, se desculpar:
Muitas vezes um vaqueiro
Não pôde a vaca encontrar,
Quanto mais um vagabundo
Que fugindo sai no mundo
Quando tem o que pagar.

Chico veio a responder:
O vaqueiro temeroso
Muitas vez não desvenda
O sumiço misterioso,
O que não se dá com o cão...
Me dê autorização
E lhe trago o criminoso.

Você quer mesmo é matar,
No que Chico disse "não,
Para tal não existe ordem,
Vou trazer vivo à prisão",
Tendo aquele delegado
Sem mais palavra, lhe dado,
Sua autorização.

O criminoso saudável
Profundamente, dormia,
Aquela hora passava
Pouco mais do meio dia.
Despertou ele com afinco
Sob uma quarenta e cinco
Lhe mirando em pontaria.

Pegou Chico o criminoso
E à polícia o entregou,
Essa com uns poucos dias
Como uma afronta soltou,
Depois Chico revoltado
Tendo tudo revirado
Descobriu e, então, matou.

Porém, foram muitos dias
De percurso perigoso,
Retornou magro, abatido,
E recebido saudoso
Com sua mãe lhe abraçando
A lhe ouvir lamentando:
"Me fizeram criminoso".

Fez a morte do bandido
A justiça eficiente,
A polícia, antes lenta,
Se mostrou bem competente...
Sem ninguém para apelar
Tratou Chico de formar
O seu bando independente.

Vou aqui abrir espaço
Para uma indagação,
Quem fez Lampião o Rei
Do Cangaço, no sertão?...
Pela sua ação omissa
Quem o fez foi a justiça,
Ela criou Lampião.

Assim também foi o Chico
Pereira e Antonio Silvino
Que perderam os seus pais
E nenhum viu o assassino
Ser julgado e ser punido,
Ao contrário, protegido,
Curtindo o seu ar campino.

A morte de João Pereira
Tumultuou Nazareth,
A chamada Rua Velha
Se tornou arreda-pé,
O clima que se instalara
Era mais propenso para
Jogo, cachaça e mulher.

No livro "Vingança, Não"
O autor diz muito bem
Que a nossa terra era
Como andorinhas que tem,
Pois, o povo, na peleja,
Gostava muito de igreja
Como de briga, também.

Naqueles tempos ditosos
O morto era enterrado
Dentro da vala, sem a rede
Em que era carregado,
Encerrava o seu destino
Com badaladas de sino
E orações de finado.

Mas, ia Nazarezinho
Seguindo a civilidade,
Escolas foram criadas
Com muita oportunidade,
Permutava-se, notória,
A terrível palmatória
Usada sem piedade.

Era essa palmatória
Ao aluno ignorante
Que não sabia a resposta
Uma coisa extravagante,
Batida como centelha
Já deixava a mão vermelha
E olhos lacrimejantes.

Nas rodadas de consulta
De português, geografia,
História, principalmente,
Tabuada e geometria...
Ante a pergunta ali posta
O aluno, sem resposta,
No suspense se tremia.

Nazarezinho passava
A fase da "excelência"
Que era um cântico fúnebre
De tédio na sua essência,
Ante o defunto, sem luva,
Se consolava a viúva
Com sensível reverência.

Também ali se deixara
Na janela do oitão
De cantar para o alívio
Duma alma em aflição
A canção triste, chorosa,
Que deixava triste a rosa
Ao som de "Manjericão".

Alguns costumes antigos
Foram postos para trás,
Sendo já feito distrito
Avançava sempre mais,
Ganhava outra estrutura,
Bem como, outra cultura
De crescimento e de paz.

Havia em Nazarezinho
Uma difusora em leira,
Com o seu auto-falante
Em um poste de madeira,
Além das músicas tocadas
Coisas eram anunciadas
Pela tardinha fagueira.

Era o senhor Zé Basílio
Político e o locutor,
Nossa Senhora de Fátima
Com devotado fervor
Ele abria sempre às tardes,
Após vinham as saudades
Pelos clássicos de valor.

Destacavam-se na música
Cidraque e Chico Ribeiro,
Este com sua rebeca,
O outro com seu pandeiro,
Zé Leite tinha a sanfona
E o cavaquinho à tona
Ficava com Zé Brejeiro.

Fazia o Chico Ribeiro
Sem ajuda de alguém,
Só de rebeca, uma festa,
Se saindo muito bem;
Zé Brejeiro, com seu linho,
Tocava o "Brasileirinho"
Sem dever nada a ninguém.

Além de alguns sopranos
De denotados valores
Com realejos e pífanos
Usados com tais primores,
Também na esquina, calçadas,
Se ouvia duplas formadas
De bons assoviadores.

Dava até gosto se ouvir
Geralmente, às tardinhas,
As duplas do assovio
Caprichando em suas linhas,
A tocarem, com paixão,
O frevo, samba canção,
Os chorinhos, as valsinhas.

Foram esses bons artistas
Honra da nossa cultura,
Onde tocavam, deixavam
A nossa terra à altura;
Também, poeta, escritor
Deixam marcas de valor
Na nossa literatura.

O Padre Pereira Nóbrega,
Humberto Mendes Formiga
São as duas expressões
Maiores que a terra abriga;
Um, romancista, escritor,
O outro historiador
Que já sabe usar a viga.

Há outros bons escritores
Que Nazarezinho conta,
Vanildo Mendes com livro
Que já no prelo desponta,
Também, se lê de primeira,
Maria do Carmo Pereira
Com o seu livro de monta.

Na poesia, o nazareno
Já nascera menestrel,
Pois, a terra é um poema
Não escrito no papel.
"De músico, poeta e louco
Todos nós temos um pouco",
Um ditado eis fiel.

A cultura em Nazareth,
Ou melhor, Nazarezinho,
Estava dentro de casa,
Se via em todo caminho,
Nas paisagens, nos amores
Dos aromas de mil flores,
Nos cantos do passarinho.

Também, estava a cultura
No meigo som da viola,
Nos cantos dos violeiros,
Dos poetas sem escola,
No desafio insolente
Entre a cachaça e o repente
Que no seu tema extrapola.

Surgia ainda nas feiras
Os poetas cantadores
Que cantavam os folhetos
Com histórias de amores,
Dos coronéis e vaqueiros,
Mas também, dos cangaceiros
Vingando progenitores.

Esses folhetos de feira
Que traziam como tal
A literatura clássica
Para o ambiente rural,
Eles foram importantes
Para a formação em diante
Dessa cultura atual.

Muitos apreciadores
Nem sequer sabiam ler,
Mas compravam o folheto
Com o seu maior prazer,
E em um dia acertado
Alguém antes convidado
Vinha a leitura fazer.

Por vezes se dava à noite
Na base da lamparina,
Uma parada pediam,
Uma cana na surdina,
No correr do itinerário
Era posto o comentário
Que já era uma rotina.

A "Donzela Teodora"
Era um folheto afamado,
"As proezas de João grilo"
Era já outro aprovado;
"O Pavão Misterioso"
Com o seu feito engenhoso
Era o mais apreciado.

Eram o primeiro e último
Dois clássicos universais
Que o homem analfabeto
Daquelas áreas rurais,
Conhecia seus traçados
Bem antes que os letrados
Com seus saberes a mais.

Esse folheto de feira,
Hoje chamado cordel,
Ele foi muito importante,
Cumpriu bem o seu papel;
Com o homem sem ler nada
Serviu nessa cavalgada,
Para ele, de corcel.

Ele foi algumas vezes
O jornal do meu sertão
Como "cordel jornalístico"
A levar a informação
Detalhada, verdadeira,
Que se comprava na feira
Para ler em mutirão.

Foi o "cordel jornalístico"
Que lá em Souza informou
Que Chico Pereira há muito
Desse mundo se mudou;
Quando já ninguém sabia
O mistério que o escondia,
O folheto detalhou.

O cavalo foi das letras
No galope do saber,
Ao letrado e analfabeto
Que nunca pôde aprender;
Porém, o valorizava
E por isso ele comprava
Para outro vir a ler.

O cordel está aí
Com leitores diferentes,
Com poetas já formados,
Com seus temas conseqüentes,
Mas, preservando a estética
Da boa rima, da métrica
E seus ritmos fluentes.

Com esforço dos poetas,
Pelo seu saber motriz,
O cordel vem sendo usado
Pelo mestre e aprendiz;
Atingindo a alta escala
Está em salas de aula
Por esse imenso país.

Por uma fatalidade
Nazarezinho, fiel
À leitura do folheto
Onde fez um bom papel,
De valor reconhecido,
Deixou de ler pra ser lido
Nesses versos de cordel.



Medeiros Braga - Economista e poeta
  Autor:   Medeiros Braga


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